2h atrás
Clarity Act emperra no Senado dos EUA em disputa sobre cláusulas de ética
Autor | Azuma (@azuma_eth)
Com poucos dias úteis restantes antes de o Congresso dos EUA entrar no recesso de verão — previsto para começar em 7 de agosto —, o relógio corre contra a aprovação no Senado do Digital Asset Market Structure Act, conhecido como Clarity Act.
Na semana passada, a Casa Branca aceitou incluir no texto uma "cláusula de ética" para restringir que presidente, vice-presidente, membros do Congresso e outros funcionários federais lucrem com ativos digitais durante o exercício do cargo. O mercado leu a iniciativa como sinal de disposição de Trump e dos republicanos para ceder e destravar a última grande divergência com senadores democratas: as regras de ética.
A divulgação das emendas detalhadas, porém, mostrou um cenário mais intrincado. Alex Thorn, chefe de pesquisa da Galaxy, escreveu no fim de semana que o projeto chegou à "linha da uma jarda" — referência do futebol americano para o trecho final, muitas vezes o mais difícil. Diante do tempo curto e da resistência democrata ao texto atual, Thorn reduziu para 30% a probabilidade de o projeto virar lei até 2026.
Segundo ele, o Clarity Act ainda enfrenta desacordos em várias frentes, como proteções a desenvolvedores, limites regulatórios do DeFi, restrições a rendimento de stablecoins, mecanismos de registro na CFTC e novas disposições de fiscalização. Ainda assim, o entendimento predominante no mercado é que o principal obstáculo continua sendo a cláusula de ética, antes vista como uma concessão de Trump e dos republicanos.
Pelo texto consolidado mais recente do Senado, o Clarity Act tem 616 páginas. As novas regras de ética buscam limitar a participação do presidente, vice-presidente, parlamentares e outros altos funcionários federais em atividades ligadas a ativos digitais. O pacote proíbe essas autoridades e seus cônjuges de emitir ou promover ativos digitais durante o mandato, restringe a listagem de ativos relacionados em plataformas reguladas, exige divulgação de interesses e prevê mecanismos de blind trust. O Departamento de Justiça (DOJ) foi designado como órgão responsável pela aplicação, e as medidas expirariam automaticamente em 20 de janeiro de 2029, após o fim do mandato de Trump.
Para os democratas, esse desenho tem falhas relevantes. A primeira crítica é a concentração da fiscalização no DOJ, considerada insuficientemente independente. Como o departamento integra o Executivo e o procurador-geral interino, Todd Blanche, atuou como ex-advogado pessoal de Donald Trump, democratas questionam a efetividade da supervisão interna quando o alvo pode ser o próprio presidente ou figuras do alto escalão. Por isso, defendem transferir a competência de enforcement para procuradores-gerais.
O segundo ponto é a cláusula de expiração em 2029, que gerou forte reação por coincidir com o término do mandato atual de Trump. Na avaliação democrata, isso deixaria sucessores sem base legal para apurar condutas anteriores. Se a proposta pretende estabelecer um arcabouço regulatório de longo prazo para ativos digitais, argumentam, os padrões éticos deveriam ser permanentes, e não atrelados à presidência de Trump.
Há ainda preocupação com o alcance das restrições. O texto mira principalmente emissão ou promoção direta de ativos digitais, mas não delimita de forma clara a participação em ganhos cripto por meio de empresas afiliadas, familiares ou outros canais indiretos — tema sensível diante do envolvimento de alguns filhos de Trump no setor. Assim, permanece a dúvida sobre a suficiência da cobertura.
A senadora Elizabeth Warren, crítica histórica do projeto, divulgou na semana passada uma nota formal condenando o modelo de "fiscalização apenas pelo DOJ" e afirmando que o projeto "deveria ser vetado ao chegar". Com peso mais direto na contagem de votos, sete democratas que negociam com republicanos — Mark Warner, Angela Alsobrooks, Cory Booker, Catherine Cortez Masto, Ruben Gallego, John Hickenlooper e Raphael Warnock — publicaram uma declaração conjunta dizendo que o texto atual "fica aquém do esperado".
Do lado republicano, não há sinais de novas concessões apesar da pressão democrata. Patrick Witt, diretor-executivo do White House Digital Assets Advisory Council, afirmou que o presidente já fez concessões históricas e que os democratas seguem insatisfeitos: "You can't hit two home runs in one swing."
O espaço no calendário também encolheu. Nesta manhã, o líder da maioria no Senado, John Thune, indicou que o Clarity Act será colocado em pausa para priorizar confirmações de indicados ao governo e o projeto sobre sanções à Rússia. Além disso, o Senado vai dedicar terça e quarta-feira desta semana ao funeral do falecido senador Lindsey Graham. Com isso, a janela para avançar o Clarity Act antes do recesso ficou ainda mais apertada.
A expectativa de mercado é que a proposta talvez nem chegue a votação antes da próxima semana, já nos últimos dias antes da suspensão dos trabalhos. A ex-senadora Anne Kelley escreveu hoje no X que, pelas regras do Senado, uma vez acionada a moção de encerramento de debate (cloture) em um projeto controverso e relevante, ele vira prioridade máxima — o que praticamente impede que o Senado avance simultaneamente outro grande projeto polêmico até que emendas sejam analisadas, novo cloture seja invocado e transcorram até 30 horas de debate formal.
Na prática, o Clarity Act não depende apenas de resolver suas divergências a tempo, mas também disputa espaço com outras pautas contenciosas — como o projeto de sanções à Rússia, o orçamento e o SAVE bill — pelo limitado tempo de votação. Por isso, apesar das projeções iniciais de aprovação antes do recesso, cresce em Washington o número de analistas reduzindo as expectativas.
Para a indústria de criptoativos, a disputa legislativa entrou na reta final. O arcabouço regulatório está a um passo de ser implementado, e o desfecho — aprovação nos próximos dias ou adiamento por tempo indefinido — deve ficar claro em breve.